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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A parábola dos sete sapatos sujos

No dia 7 de março de 2007, o escritor, médico e biólogo moçambicano Mia Couto fez uma palestra na abertura do ano letivo do Instituto Superior de Ciência e Tecnologia de Maputo. Excertos dessa “oração de sapiência” foram publicados no Courrier Internacional sob o título “Os sete sapatos sujos”. Escreveu Mia Couto: “...não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos nos descalçar. Contei 7 sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e 7 é um número mágico: 1°) A idéia de que os culpados são sempre os outros; 2°) A idéia de que o sucesso não nasce do trabalho; 3°) O preconceito de que quem critica é um inimigo; 4°) A idéia de que mudar as palavras muda a realidade; 5°) A vergonha de ser pobre e o culto das aparências; 6°) A passividade perante a injustiça; 7°) A idéia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.

Mia Couto vive em Moçambique, ex-colônia de Portugal, situada na costa oriental da África Austral que possui 19 milhões de habitantes. Seu PIB per capita é de US$ 250. País pobre, povo miserável, fragilizado por inúmeras revoluções.

Os sete sapatos sujos que Mia Couto recomenda sejam deixados na soleira da porta dos tempos novos servem perfeitamente para nós, brasileiros, que vivemos enrolados em preconceitos e injustiças, frutos da mediocridade e da indigência intelectual que campeia nas viciadas estruturas do poder político dominante. Nossos representantes, na verdade, nem querem saber de novos tempos, preocupam-se, apenas, com a retórica oficial que lhes permite amealhar os frutos que o poder proporciona a si e aos seus, adeptos do quanto mais, melhor. O povo que se lixe.

Os sete sapatos sujos com a lama do obscurantismo e da opressão devem, sim, ser deixados na soleira da porta dos novos tempos, mas será que basta deixarmos só sete? Para erradicarmos tudo o que nos impede de crescer precisamos, todos, entrar descalços, inclusive, sem meias, na porta da modernidade, para que não vinguem artifícios criados por decreto provocando um escorregadio retrocesso.

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