Acompanhando Interface Ativa!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A palavra desnecessária

A palavra desnecessária é torpe, vil e abunda. Grassa e conspira. Consome quem constantemente a articula e escreve. Humilha os que a ouvem e lêem.

A palavra desnecessária é fel. Fere fundo. Vilipendia o dia a dia. Faca afiada. Acerta fundo.
A palavra desnecessária é matriz da violência. Ferro que queima e teima. Dilacerando tudo.
Palavras desnecessárias nós ouvimos todos os dias. Até já nos acostumamos com elas. Não poderíamos. Palavras desnecessárias são um argumento contra a vida. Invalidam tudo.
E o pior é que, geralmente, quem fala a palavra desnecessária nem tem consciência do que está dizendo ou, quem sabe, é só o que sabe dizer...
Mas a palavra desnecessária ofende, machuca, diminui o Ser que a disse, diminui o Ser que somos, porque implica em dor, em espanto, em denso pranto mesmo não chorado a olhos vistos, represado.
Desnecessária é a palavra que afronta, que magoa, que atormenta. Tormenta de letras desfalcadas de sentido. Escuridão profunda. Funda gruta de terror eu sinto.
Desnecessária é a palavra que corrompe, que compele ao delito. Que afrouxa e rompe as amarras, caras teias que tecemos no tempo, fios do céu ao chão se vão, subvertendo a mão que nos separa do conflito.
Desnecessária é a palavra que diz guerra, tortura, explosão, morte do irmão, sangue, aço retorcido, asa partida, torre desabada, sonho abandonado. Retumbante som.
Uma pergunta que não cala. Por que é tão falada a palavra desnecessária?
É por vontade?
É por maldade?
É por insensibilidade?
Ou já se acha descartada a palavra necessária?
Onde está escondida a palavra necessária?
Aquela que une, re-une e re-unifica e ressuscita os nossos sonhos. Aquela que soma e não divide. Aquela que atrai e aproxima. Aquela que cria, re-cria e revigora.
Onde está aquela palavra que dá vida?
Está aqui, aí, dentro de nós.
Vamos reaprender a falar a palavra necessária?
E a usar a borracha mental para apagar aquela que nos faz morrer um pouco cada vez que a pronunciamos, fadando-a ao lixo, escória, cinza da palavra, alijando-a do dicionário humano Ser que somos.

Um comentário:

Antonio disse...

Desnecessário é dizer que essa é a luta exacta.
Obrigado pelo texto.