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domingo, 4 de maio de 2008

A leitura predileta da elite mundial

*"Quem influi mais nas decisões do presidente e do Congresso dos Estados Unidos: as informações e editoriais do The New York Times ou um fabricante de biscoitos com faturamento cinco vezes maior?” A pergunta, presente em Os melhores jornais do mundo, de Matías M. Molina, diretor de Análise de Informações Internacionais da CDN Comunicação Corporativa, sintetiza com clareza a importância que os jornais de prestígio exercem nos centros do poder. O livro, que a Editora Globo lançou em dezembro de 2007, apresenta um perfil completo dos mais importantes jornais do mundo. A escolha dos periódicos foi definida com base na experiência de 45 anos de jornalismo do autor, que esteve por 29 anos na Gazeta Mercantil, onde foi diretor editorial do grupo, editor-chefe, correspondente em Londres, editor de Finanças e Internacional e secretário-geral. Molina também foi editor de economia da Folha de S. Paulo e primeiro editor da revista Exame.

O autor escolheu 17 jornais de referência, sendo quatro dos Estados Unidos (The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post e Los Angeles Times); um do Canadá (The Globe and Mail); três ingleses (Financial Times, The Guardian e The Times); dois franceses (Le Monde e Le Figaro); dois alemães (Frankfurter Allgemeine Zeitung e Süddeutsche Zeitung); um suíço (Neue Zürcher Zeitung); um italiano (Corriere della Sera); um espanhol (El País) e dois japoneses (Asahi Shimbun e Nihon Keizai Shimbun).

O livro nasceu de uma série de artigos publicados no Valor Econômico e, além de abordar detalhadamente a forma como esses diários interferem na agenda de seus países, discute o futuro do jornalismo impresso em um cenário que apresenta cada vez mais novas plataformas para a difusão de notícias.
Acompanhe alguns trechos da entrevista concedida pelo autor Matías M. Molina ao Portal CDN:

Quando surgiu a idéia de escrever o livro, como foi o processo de produção?

Meu contato com alguns dos jornais sobre os quais escrevi é antigo. A decisão de colocar as informações no papel surgiu de uma conversa com Célia de Gouvêa Franco, do Valor Econômico, e foi consolidada depois de falar com a diretora do jornal, Vera Brandimarte. Escrevi uma série de artigos para o Valor sobre esses jornais e, posteriormente, preparei esse livro para a Editora Globo com base nos artigos.

Quais são os principais traços comuns nos jornais escolhidos?

A preocupação com a qualidade e com a relevância das informações; a independência em relação ao poder; a capacidade de influir na agenda pública; e uma visão própria dos eventos internacionais. Esses jornais são, no fundo, os porta-vozes de uma burguesia esclarecida e centros de debates intelectuais. Apesar do enfoque cosmopolita, o que esses jornais guardam das “personalidades” de seus países de origem? Uma das melhores definições foi dada pelo dramaturgo norte-americano Arthur Miller: “um bom jornal é uma nação falando para si mesma”. Os jornais de elite têm profundas raízes na sociedade em que nasceram e se desenvolveram.

Alguns desses diários têm mais de 200 anos. Quais foram as mudanças mais notáveis que realizaram no decorrer do tempo?
Houve inúmeras mudanças materiais. O mais relevante, porém, é que apesar da necessidade de se adaptar para conseguir sobreviver a turbulências, guerras e pressões, eles continuaram fiéis a seus princípios. Outros jornais, que tiveram um começo medíocre ou irrelevante, conseguiram dar um enorme salto de qualidade.

De maneira geral, os jornais de qualidade apresentam um declínio constante em suas tiragens. Esta queda é atribuída ao avanço da Internet e à falta de renovação de seu público. Como eles vêm enfrentando estes desafios, a concorrência com a web e a necessidade de criar novos leitores?
Quando surge um novo meio de comunicação, os outros perdem espaço. O rádio tirou público dos jornais, a televisão aberta tirou dos jornais e do rádio e agora a TV por assinatura está ficando com grande parte da audiência da TV aberta. Os canais tradicionais dos Estados Unidos perderam mais espectadores do que os jornais perderam leitores. Os jornais impressos tentam distribuir suas informações e opiniões em várias plataformas: papel impresso, Internet, telefone celular, iPod etc.

O leitor ocidental sabe muito pouco sobre a imprensa escrita japonesa. O dado mais conhecido é que ela possui as maiores tiragens e um grande índice de assinantes. Como os diários japoneses conseguem manter a grande circulação em uma sociedade tão digitalizada?
Os jornais japoneses têm uma preocupação com a informação local e com o leitor local difícil de entender no Ocidente. Alguns circulam com mais de 200 edições locais, que publicam informações de interesse imediato para o público. Isto contribui para manter a fidelidade do leitor.

Durante muito tempo, The New York Times foi apontado como o mais importante e influente jornal do mundo. Esta situação permanece ou foi afetada pelas crises recentes, como o caso Jayson Blair (repórter que cometeu diversas fraudes jornalísticas) e a invasão do Iraque, que o jornal inicialmente apoiou e depois voltou atrás?
Apesar dos problemas, The New York Times é ainda o jornal mais influente do mundo. As crises mencionadas abalaram realmente suas autoconfiança. Mas teve a capacidade – muito rara na imprensa – de examinar seus próprios erros e reconhecê-los publicamente. Uma maneira de avaliar a grandeza de um jornal é ver como fala de si mesmo e como reconhece e expõe em público seus erros e seus problemas. A maioria das empresas jornalísticas é extremamente fechada.

Numa lista mais ampla de jornais de referência, o senhor incluiria algum diário latino-americano?
É meu propósito preparar um livro exclusivamente sobre os principais jornais e grupos de comunicação da América Latina.

No Brasil, a maioria dos jornais não costuma declarar apoio a candidaturas políticas. Como os jornais que o senhor estudou agem antes das eleições? Declaram apoio ou manifestam neutralidade?
A maioria declara, em editorial, suas preferências. Simultaneamente, esses jornais tentam conservar sua capacidade crítica a respeito de todos os candidatos, inclusive do que é apoiado por eles. Nem sempre conseguem".
*Extraído do Portal CDN

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