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quarta-feira, 7 de maio de 2008

Em nome da preservação da Infância e da Vida

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá se entregaram à Polícia, agora à noite. Acabam de ser presos pelo provável assassinato da menina Isabella Nardoni, caso que comoveu o país e tem cobertura maciça da imprensa desde 29 de março. Esperemos que a mídia continue a denunciar a constante e diária violência contra as crianças que acontece no Brasil. Especificamente em Santiago, que as rádios e os jornais denunciem, informem, insistam em mostrar a violência a que são submetidas as nossas crianças. E que os assassinos, espancadores e torturadores não restem impunes, sendo exemplarmente punidos pelos poderes competentes.

Betty Millan, escritora e psicoterapeuta, escreve semanalmente para o site da Revista Veja, e argumenta, com propriedade:
"Isabella tinha cinco anos. Foi atirada do sexto andar de um prédio e morreu. A suspeita do envolvimento do pai e da madrasta no assassinato mobilizou a imprensa escrita e televisiva e horrorizou a nação. Por que tamanha brutalidade? O que explica a ação dos suspeitos? Será o orgulho humano, como quer o Cristianismo? A irracionalidade de, como quer a Filosofia? A perversão, como quer a Psicanálise? Nem a explicação religiosa, nem a filosófica, nem a psicanalítica dão conta do recado. Nenhuma consideração abstrata esclarecerá os fatos. O caso de Isabella só será esclarecido através do laudo pericial e do(s) discurso(s) do(s) criminoso(s). Tanto depende da análise da história concreta quanto da escuta.

A focalização do crime pela imprensa é uma faca de dois gumes. Terá sido oportuna se graças a ela toda criança assassinada, torturada e abandonada se tornar objeto possível de notícia. Se Isabella tornar-se um símbolo das crianças violentadas no país, como pode sugerir o título da reportagem de Veja de 16 de abril: Isabella continua a morrer. Mas a ação da imprensa terá tido uma função encobridora se o resultado for só a comoção das pessoas e não a reflexão. Porque nesse caso o drama dos meninos e meninas que perambulam pelas ruas, prometidos à doença e ao traficante, continuará ser considerado.

A Isabella foi vítima de uma brutalidade inexplicável. Como, em Belo Horizonte, a recém-nascida jogada na água pela própria mãe e resgatada com vida na Lagoa da Pampulha. Como, em Goiás, o menino de nove anos, cujo corpo foi queimado com ferro de marcar gado por dois trabalhadores de uma fazenda. Como a menina torturada por uma empresária que lhe causou vários ferimentos e quebrou os dentes. Todos crimes que simultaneamente nos horrorizam e nos fascinam.
Horrorizam porque são a evidência de uma selvageria que aprendemos a recusar. Fascinam por estarmos todos sujeitos à paixão do ódio, como diz Freud. Em Idéias sobre a Guerra e a Morte, texto de 1915, ele afirma que basta pensar na importância atribuída ao mandamento Não Matarás para deduzir que somos produtos de uma série infinita de gerações de assassinos. Que temos a paixão do crime no sangue.
Isabella foi vítima de uma selvageria inadmissível e a polícia está mobilizada para punir o(s) criminoso(s). O menino de rua é vítima de uma indiferença igualmente inadmissível e precisa mobilizar a opinião pública. O drama dele deve ser noticiado antes que seja brutalmente assassinado.
A mesma imprensa que focalizou o caso de Isabella deveria - para ser coerente e fiável -, dar ao menino de rua o espaço e sobretudo a palavra, que é um abre-caminho e um antídoto eficaz contra a indiferença. O papel da imprensa é, no mínimo, tão importante quanto o da escola, no controle da violência, que precisa ser continuamente desautorizada - pois o gozo sádico nos ronda.

Reconhecer que estamos sujeitos a barbárie é dar um passo em direção à civilidade. Como reconhecer a quase inevitabilidade da guera, é dar um passo em direção à paz. Por isso, o pessimismo de Freud se justifica. Paradoxalmente, ele é benéfico, vital".

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