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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Tiradentes e a liberdade, ainda que tardia...

Muito raramente, encontram-se vozes dissonantes no concerto laudatório a Joaquim José da Silva Xavier - Tiradentes, o protomártir da Independência do Brasil. Mesmo textos satíricos preservavam o herói, enquanto teciam críticas ao governo, a políticos ou a outras figuras de relevo. Poucos se aventuraram a contestar, timidamente que fosse, o conjunto de imagens consagradas, como fez o escritor Eduardo Frieiro, logo refutado por outros ensaístas. Em artigo publicado no jornal Estado de Minas, ele se mostrava incomodado com o tom laudatório predominante:

Na historiografia de Tiradentes, o tom apologético e a inflação verbal, exaltadamente patrióticos, próprios para despertar emoções para adolescentes, tornaram quase temerário o ponto de vista dos que consideram o drama da Inconfidência Mineira com certa frieza realista. Não tem faltado, entretanto, vozes autorizadas que subestimam a importância histórica da conjura larvar de 1789 e reduzam a proporções modestas o papel do homem afoito que pagou com a vida por falar demais e deitou a perder poetas, padres, doutores e militares pelo único crime de terem externado o seu inconformismo político.


Frieiro trabalhou, neste artigo, com as idéias de Joaquim Norberto de Souza Silva e de Capistrano de Abreu, no intuito de demonstrar a existência de outras versões sobre a conspiração e sobre o papel de Tiradentes. A intenção ficou explicitada em suas perguntas: Houve na realidade, uma tentativa séria de levante? Foi Tiradentes verdadeiramente o chefe dessa tentativa? Sua preocupação com a "verdade" sobre essa história levou-o a argumentos contrários à exaltação, mas isso não indica que fosse, ele próprio, partidário desses argumentos. Na verdade, ao final do artigo, Frieiro voltou à representação mais aceita que, mesmo considerando a possibilidade de um comportamento atrapalhado de Tiradentes, não alterou sensivelmente sua posição como mártir ou como herói, mesmo quando deixou entrever suas fraquezas:

Tiradentes pagou por falar demais. Pagou mais que os outros porque era um mestiço, de casta inferior, o mais humilde dos indiciados na devassa. Sua mente inflamada, típica do indivíduo impulsivo e generoso que está sempre pronto a fazer justiça por seu próprio arbítrio, comprometeu irremediavelmente os personagens do tenebroso drama urdido pela polícia política do tempo, truculenta e feroz como todas as justiças políticas. Mas a dignidade que conservou na provocação, em contraste com a pusilanimidade de quase todos os indiciados (os companheiros melhor posicionados economicamente receberam castigos públicos leves ou o desterro...), o holocausto de sua vida, exigido pelo absolutismo liberticida, o redimiram de todas as imprudências e leviandades. Sua sombra legendária de vítima do despotismo merece o respeito da História.

*Excerto de artigo da professora Thais Nívia de Lima e Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais, em que analisa a produção jornalística sobre o herói nacional, procurando identificar os principais elementos constituidores daqueles textos, destacando os que têm evidente enraizamento no universo cultural brasileiro e que, por isso, apresentam uma longevidade considerável. A constatação de elementos que têm se mantido desde o século XIX indica, por um lado, a vitalidade do mito e, por outro, o poder persuasivo das associações estabelecidas, entre o sacrifício heróico de Tiradentes e as condutas dos que se colocam como seus herdeiros.

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