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sexta-feira, 4 de abril de 2008

Alguma poesia


Alguma poesia pretende ser uma espaço quase diário dedicado à poesia, aos grandes talentos que sabem tornar a palavra macia, maleável, musical, com estilo e sabedoria, além, é claro, de proverbial e alta sensibilidade que só a alguns (raros ungidos) é dado tê-la.
O anticrítico
Tenho um livro fantástico que comprei na antiga Livraria do Globo, em Santa Maria, em 10 de março de 1988, chamado O anticrítico, escrito por Augusto de Campos, que traduz criativamente poemas de alguns geniais mestres da palavra poética como Dante Aligheri, John Donne, Emily Dickinson, Lewis Carrol, Verlaine, Mallarmé, Gertrud Stein e John Cage (o último é músico...)

Augusto de Campos explica a sua obra: Re-criar é a meta de um tipo especial de tradução: a tradução-arte. Mas para chegar à re-criação é preciso identificar-se profundamente com o texto original e ao mesmo tempo não barateá-lo; enfrentar todas as suas dificuldades, tentar reconstituir a criação a partir de cada palavra, som por som, tom por tom. É uma questão de forma, mas também é uma questão de alma...

Augusto de Campos se transfigura em anticrítico e no prefácio Antes do Anti anuncia que abomina os críticos que praticam aquilo que já chamou de "dialética da maledicência". Os que não iluminam nem se deixam iluminar. Os desconfiados e os ressentidos com a sua própria incompetência cósmica para entender ou criar qualquer coisa de novo, os que desviam a atenção dos melhores para os de 2ª categoria ou para os seus próprios escritos críticos. Contra esses eu sou. Contra esses dirijo minha crítica de amor e de amador, critica via tradução criativa. Mas a minha meta é outra. A minha meta é a poesia que é cor, é som, é fracasso de sucesso e não passa de uma conferência sobre nada.

E um dos maravilhosos poetas traduzidos por Campos é John Donne (1572-1631), que ele refere como o primo pobre de Shakespeare, como Sá de Miranda, primo pobre de Camões, melhor que Camões...

Bem, apreciem um pouquinho de John Donne na corajosa Elegia: indo para o leito, striptease meta-físico, q o pun d'nor da época vetou na 1ª edição...

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz,
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela.
Céu cintilante, uma área ainda mais bela,
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado,
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
é um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
aos homens. Tu, meu Anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho de tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

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