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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Reaprendendo a arte de viver com arte



A frieza que ultimamente tem interferido na relação das pessoas é um mal do mundo moderno, onde não há mais tempo para nada, nem mesmo para construir relacionamentos, quanto mais melhorá-los. E as pessoas vivem e sobrevivem de relacionamentos. Temos conviver para manter o equilíbrio, crescer e existir mais humanamente.

Frieza, indiferença, descaso, distância, são palavras escritas com gelo. Cristalizam. Fazem parte de um vocabulário muito usado, não só com palavras, mas pelo olhar. Um olhar soturno, acinzentado, cor de treva. Se observarmos as pessoas, na rua, a maioria caminha rápido, passos largos, em aflição; não olham para os lados, não têm tempo, vão perder o ônibus, vão chegar atrasados ao trabalho, têm um compromisso, precisam correr... Olhos mortos, sem expressão, fixos apenas em medir a distância que as separa de seu destino, que é o mesmo, todos os dias.

 Ir e vir. Vir e ir. Sem parar. Trabalhar sem descanso porque há contas a pagar, porque há compromissos a cumprir, há tarefas a entregar. Nem lembramos mais que há um EU a cuidar, que há um TU a esperar, que a um NÓS a construir.

Nessas idas e vindas de dura e sistemática repetição deixamos de perceber o espetáculo diário que a vida nos oferece – abdicamos de nossa sensibilidade e nos refugiamos no tédio ou na queixa da mesquinhez e da crueldade do cotidiano, que nada nos dá, só tira.

Precisamos refletir e aceitar o desafio que se impõe se quisermos reaprender a viver. Precisamos aprender a viver com arte, a viver dentro da arte. Da arte de amar. Precisamos descobrir novos caminhos, diminuir o ritmo, apreciar as cores do dia, sentir a brisa batendo, leve, no nosso rosto, desfrutar o canto dos pássaros, sentir novos aromas, sorrir e perceber o outro que está ao nosso lado.

Viver com arte é enfrentar os desafios, é recuperar um tempo em que tudo era capaz de nos emocionar – o mar, o céu, os cheiros, os sons, as flores, o vento, os amores, os livros, os filmes, a música...

Este é o desafio de cada um - o do ampliar altura e largura da alma, enriquecendo o espírito porque a vida, muitas vezes trágica e sofrida, também pode ser engraçada, doce e divertida e, sempre, compartilhada! Aceitando o desafio, podemos voltar a cuidar do nosso EU, reencontrando aquele que nos espera para reconstruirmos o NÓS.

Na verdade, o que impede a aproximação é o medo. O medo da indiferença. O medo da frieza que vemos nos olhos dos outros, esquecendo que é a mesma que veem em nosso olhar. É o medo da dor, daquela dor que varre o mundo, que sacode a terra, que desfia os ventos, que nos invade, que nos divide, que nos diminui, que nos encerra...

Há que olhar mais fundo para compreender. Há que parar para enxergar. Há que ter sensibilidade para entender que o meu olhar de gelo que reflete o teu é apenas a armadura que esconde o calor, que cristaliza a lágrima escondida, represada, pronta a desaguar a um mínimo gesto, um sinal... desfazendo o olhar antártico criado apenas para proteção.

Palavras escritas com gelo podem ser transformadas, sim, em palavras escritas com fogo. Olhar de gelo também pode ser aquecido por generosidade, brandura, amor.

Às vezes, o gelo no olhar e na palavra é pura falta de exercício.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Alguma poesia

RECEITA PRA LAVAR PALAVRA SUJA
Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar
e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,
que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente
sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo,
sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode,
o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,
não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.

[in Receita pra lavar palavra suja, Viviane Mosé. Rio de Janeiro: Arte Clara, 2004]

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Estrela de um novo dia

Caros e caras, queridos e queridas, voltei! Aqui, nas Águas Claras em que habito, tudo sereno, tranquilo e transparente! Vocês já sabem, quando há um fato relevante eu apareço para conversar um pouquinho e o último dia do ano é uma data que não pode passar em branco no calendário humano. Mesmo que os humanos passem o ano inteiro desfazendo sua humana condição de seres criados para o bem. Acho que é para isso que os dias existem e se sucedem – para que a flor da vida desabroche uma vez mais e se espalhe, com o vento, o perfume que nos faz renascer e nos reconhecermos como iguais que somos, apesar de todas as diferenças, desinteligências e distâncias. Na verdade, somos um e somos o todo, uma grande estrela brilhante que se divide constantemente e gera milhões de pequenos cristais que cintilam intensamente, no céu da existência. Não podemos viver separados.

O último dia do ano tem uma virtude especial que nos convida à reflexão – não sobre o que de bom fizemos, que isso é praxe, é da obrigação. Mas, sim, sobre o que deixamos de fazer, por preguiça, por desídia, por acomodação, por arrogância. A quantas pessoas magoamos com nossa indiferença, com a nossa ausência, com a nossa falta de tato e de sensibilidade? Quantos amigos deixamos de ouvir porque não encontramos tempo nem ocasião para consolá-los em suas aflições cotidianas? Quantas vezes deixamos de abraçar e acarinhar nossos pais, filhos, irmãos e companheiros porque o ritmo alucinante de nossa jornada não nos permitiu pararmos um instante que proporcionasse aconchego e intimidade, entendimento e partilha?

Eis aí, caros e caras, queridos e queridas, a oportunidade! Uns minutos de meditação, hoje, podem ser preciosos para que amanhã, na aurora do ano novo, numa venturosa e encantadora manhã, fresca, clara e luzidia, nos permitamos um novo recomeço... Somos abençoados por contarmos com mais um dia, com mais um ano, para preenchermos a nossa vida e a dos que nos cercam com o que realmente importa – amor, solidariedade, esperança, trabalho, justiça, paz e harmonia.

Então, estes são os meus presentes de Ano Novo para vocês – amor, solidariedade, esperança, trabalho, justiça, paz e harmonia. São presentes do meu coração de estrela, Strellitziah. Strellitziah K. Dent. Faz algum tempo, um certo compositor fez uma canção para mim (ele nem sabe disso...). Na verdade, apossei-me dela, porque é linda. Hoje, eu a dedico a todos vocês, como um mimo, ao raiar do Ano Novo. É Estrela, de Gilberto Gil:

Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu 
Cada vez que ocê chorar

O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então 
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir

Hum!
Deus fará
Absurdos
Contanto que a vida
Seja assim
Sim
Um altar
Onde a gente celebre
Tudo o que Ele consentir



*Strellitziah K. Dent é consultora para assuntos sentimentais, vidente, astróloga, guru & assemelhados. Absolutamente do bem.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Leon


Morava naquele prédio há pouco tempo e, como acontece nas cidades grandes, não conhecia os vizinhos, com quem cruzava, eventualmente, nos corredores, saudando-os com um cumprimento cordial. Não sei exatamente quando comecei a notar uma presença que, aos poucos, foi se tornando marcante, talvez pela inusitada estampa da pessoa, talvez pelo seu procedimento sistemático. Ele morava no fundo do corredor, no mesmo andar.

Era um velhinho, cabelos brancos, abundantes, ondulados, bem penteados. A barba igualmente branca, maçãs do rosto rosadas, sorriso comedido e uns olhinhos... hum! pra lá de matreiros, que se sobrepunham aos óculos de armação redondinha! Vestia roupas comuns, simples, mas que lhe caiam perfeitamente, escondendo o ventre algo proeminente.

Eu saía para o trabalho, todos os dias a mesma hora, geralmente apressada, cheia de anotações mentais, preocupada com a agenda diária a ser cumprida. A primeira vez que o vi, entramos juntos no elevador. Cumprimentei-o e sorri. Ele apertou o botão e notei que segurava um saco de tecido em uma das mãos. Dobradinho. Descemos. Agradeci quando abriu a porta e saímos, cada qual para o seu lado. E assim sucederam-se os dias. Olá! Bom-dia! Como vai? Que dia lindo! Como está frio! Será que ainda vai chover muito?

Raramente o via quando voltava do trabalho, já que não tinha horário. Uma noite, já bem tarde, ao entrar no prédio, vi que ele também aguardava o elevador. Desta vez, devolvi a gentileza, apertando o botão do nosso andar, porque ele trazia o saco, que segurava com as duas mãos. Parecia pesado e ele, cansado.

Fiquei extremamente curiosa com aquela situação que virava rotina e indaguei ao porteiro quem era aquela figura. – Ah! É o Seu Leão. Desde que veio morar aqui, é assim... Saco vai vazio, vem cheio. É boa gente, sempre sozinho, a esposa já se foi, faz tempo. Não sei o que ele faz, não dá entrada pra conversa... Acho que é aposentado.

Na manhã seguinte, na mesma hora, no mesmo corredor, cumprimentei-o: - Bom-dia, Seu Leão! Ele sorriu e respondeu, com um sorrizinho travesso:- Bom-dia, mas não é Leão; é Lé-on, disse ele, fazendo questão de pronunciar o "e" bem aberto. - Ah! Como o Tolstoi, brinquei... – Isso! É o Jesus que me chama de Leão... - E a senhora, qual é o seu nome? – Sou Maria. – Lindo nome, como a Mãe do Nosso Senhor. Concordei e nos despedimos.

Assim foi, por meses. Na correria antes das festas de fim de ano, me dei conta que naquele dia não tinha me deparado com o Leon. Lendo as notícias na internet, uma, em especial, chamou minha atenção: “Idoso atropelado num cruzamento no centro – carregava saco cujo conteúdo ficou espalhado na rua”. Leon Pinheiro está hospitalizado no Divina Providência e chama por Maria... Li as últimas palavras já com a certeza de que a Maria era eu e voei para lá, com o coração na mão.

- Sou a Maria que o Seu Leon Pinheiro chama.

- É parente? – Não, sou vizinha. Ele não tem ninguém.

– Entre, então, porque ele não para de chamá-la!

Leon, deitado no leito, tinha cara de desespero profundo; a perna engessada. Quase não podia falar. Quando me viu, serenou, ensaiou um sorriso dolorido e puxou algo debaixo do travesseiro. – É a chave do apartamento. Entra lá e saberá o que fazer. Desde o dia em que pronunciou o meu nome, sabia que podia contar contigo. Saí e disse que voltaria, mesmo ainda em dúvida de que missão me havia sido delegada.

Entrei silenciosamente no apartamento de Leon. Tudo imaculadamente limpo. Fui de aposento em aposento, até me deparar com um quarto cheio de sacos. Sacos cheios! Um, dois, três... 365 sacos! Em cada um, havia a anotação, em letra caprichosamente traçada: Para os meninos do Presídio Central; para as meninas do Lar de Miriam; para as crianças do Hospital Santa Casa; para as vovós do Asilo Padre Cacique... E assim fui lendo, como pude, as mais de três centenas de bilhetinhos, porque as lágrimas teimavam em cair, embaçando a minha visão...E em todos, uma assinatura: Papai Noel. Claro! Papai Le-on!

Pedi ajuda a amigos, parentes, vizinhos, para que os sacos de Papai Leon chegassem, sãos e salvos, ao seu destino. Ao retirar o último, notei que um pequeno saco tinha ficado no chão e me abaixei para pegá-lo. Parecia vazio. Também tinha um bilhetinho: Para Maria, do Papai Noel. Abri, curiosa, e dentro encontrei outro saco, igual aos de Leon. Entendi a mensagem – ele tinha me tornado parceira de sua missão, antes mesmo de saber que não poderia completá-la sem a minha ajuda.

No dia de Natal, fui visitar Leon e o encontrei sorridente, recuperando as energias. Já o tinha avisado da missão cumprida. Fui desejar-lhe Feliz Natal e mostrar que a parceria havia sido aceita – levei 365 sacos, iguais aos dele, pronta para imitá-lo na mais gloriosa jornada que alguém pode empreender – a da solidariedade!


Desejo a todos um feliz e abençoado Natal e que em seus corações reservem um espaço para a solidariedade – seja a de um sorriso, a de um aperto de mão, a de um abraço ou a de uma pequena lembrança que traduza o seu carinho para quem nada tem. Também sou Maria. Nivia Maria, como minha bisavó, minha avó e minha mãe. Também conheci um Leon, meu pai, Luiz Carlos. Eles me ensinaram a ser solidária. A historinha fica por conta da minha emoção e da arte maravilhosa de juntar as palavras, dando-lhes um sentido. E escrevendo-as com amor. Todas as palavras que eu juntar ainda vão ser poucas para traduzir o agradecimento a todos vocês, queridos amigos, que me brindaram, neste ano, com o melhor presente que alguém que escreve pode receber – a sua atenciosa leitura!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A graça da coisa


“A Graça da Coisa” é o título do novo livro de Martha Medeiros, uma cronista de mão cheia, sensível e perspicaz, mestra em perceber pequenos detalhes da vida cotidiana e, com eles, escrever deliciosas histórias. Como bem coloca Fabrício Flores Fernandes, doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e pós-doutor pela UFPI, “são necessárias sensibilidade e perspicácia para desentranhar um tema aparentemente banal e é essencial o domínio das técnicas da escrita para transfigurar esse acontecimento e materializá-lo em arte”. Pois é, Martha faz arte com a palavra, utilizando temas do cotidiano, como na crônica abaixo, publicada no Caderno Donna de ZH no dia 22 de setembro, em que a autora propõe um modo de viver mais leve, sem o cerceamento do politicamente correto que vige em todos os nossos atos. Vale a pena ler:
A GRAÇA DA COISA


“Tem quem não consiga enxergá-la de jeito nenhum, o que para mim é o mesmo que nascer sem um pé ou sem uma orelha. Quem não vê a graça da coisa, vive com um pedaço faltando. Nada que impeça o sujeito de acordar, trabalhar, viajar, mas é chato. 

A graça da coisa está em quase tudo, só que é preciso ter um olhar aberto e curioso para percebê-la, pois nem sempre ela fica evidente. Às vezes, exige leitura de entrelinhas, bom manejo da ironia, benevolência com o sarcasmo. É onde está a graça da coisa. Mas, por sorte, ela não costuma ficar escondida. E até é bem exibida. 

Um filme B, daqueles que é puro lixo, pode se tornar Cult se for assistido sem emburramento por uma plateia a fim de diversão. 

Um amigo resolve colocar os pés na cozinha pela primeira vez e o resultado é a pior massa grudenta da história. Que tal um sarau lá em casa para a gente cantar as músicas de acampamento dos nossos 16 anos? Sim, ao violão, todos bem desafinados. 

Ela ronda por aí, nas aparentes roubadas que se tornam inesquecíveis por motivar tantas gargalhadas. 

O que impede a graça da coisa de circular mais livremente é o excesso de seriedade que tomou conta do mundo. Esse tal de politicamente correto, então, é um inimigo declarado da graça. E os que não se desapegam do próprio ego também. Eles ficam de um lado, se achando, e ela fica de outro, boquiaberta: qual o sentido de se dar tanta importância? 

A graça da coisa está justamente nas desimportâncias. 

Quanto menos obsessão por elogios, por cargos e por poder, mais livres ficamos para reparar nas pequenas nuances por trás das afetações. Em tudo na vida há uma centelha de inocência que corrompe nossa rigidez e permite a entrada de uma alegria descompromissada e renovadora. A graça da coisa não tem assento reservado em camarote Vip nem lugar no pódio dos campeões, ela é simplesmente a piada espontânea surgida nos bastidores. 

Há que se zombar da vida maluca que levamos e procurar a graça da coisa em nossas fracassadas investidas amorosas, nos erros em que nos viciamos, nas discussões de relação que sempre se repetem, nas tentativas de aparentarmos sabedoria, nas rugas que tentamos suprimir puxando a pele com as mãos em frente ao espelho, em nossos defeitos favoritos, nas reprises das brigas familiares, no nosso saudosismo meio brega, no nosso vocabulário do tempo do onça. Em tudo há uma graça infantil, uma consciência comovente das nossas impossibilidades. É só desempinar o nariz.“

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A missão do jornalista


Interessante e instigador o artigo de Moisés Mendes para o jornal Zero Hora de domingo, 29 de setembro, na seção Opinião, acerca do livro da jornalista Sílvia BittencourtA Cozinha Venenosa - Um jornal contra Hitler. É um libelo e um aviso aos maus jornalistas que privilegiam a civilização do espetáculo e abandonam a sua missão de informar com seriedade. Serve perfeitamente para os ditos jornalistas da província... 

A cervejaria dos nazistas

moisesMOISÉS MENDES*
moises.mendes@zerohora.com.br
"Bebe-se e come-se na cervejaria Hofbräuhaus, em Munique, como num salão paroquial. Bancos e mesas são enormes, e todos sentam-se misturados, moradores e turistas. É como se a Alemanha subvertesse, naquela fuzarca, com brancos, pretos, amarelos, gente de todo jeito, sem separações, a ideia de um país à parte do resto do mundo _ como muitos pensaram que seria possível nos anos 30 e 40 do século 20. Tomei cerveja quente num caneco da Hofbräuhaus há 15 anos. Lembro bem do ambiente barulhento da cervejaria de quatro séculos, da fachada de arcos medievais.

Mas eu queria mesmo ter bebido em outra cervejaria, a Bürgerbräukeller, que não existe mais. Era a cervejaria de Hitler, onde ele discursava, onde se tornou líder do partido trabalhista, voltava todos os anos para comemorar uma tentativa de golpe contra o governo da Baviera e onde escapou de um atentado a bomba em 1939. Hoje há um hotel na área da cervejaria que alegrava os nazistas.

Hitler gostava de discursar em cervejarias, por onde andavam também os repórteres do Münchener Post. Os alemães devem o resgate da memória desses jornalistas a uma brasileira. A jornalista Sílvia Bittencourt, que mora desde 1991 em Heidelberg, escreveu A Cozinha Venenosa _ Um jornal contra Hitler (Editora Três Estrelas, Grupo Folha). Ainda não li o livro, mas já li tantas resenhas e entrevistas e conversei pela internet com Sílvia, que tenho a sensação de que estive muitas vezes na Bürgerbräukeller.

É um livro para comover a todos, mas para mexer mesmo com jornalistas jovens e veteranos em dúvida sobre a relevância do que se faz hoje, nessa feira de informações em que notícias sobre a espionagem de Obama disputam o mesmo espaço com notas sobre o casamento da mulher melancia ou o porco de duas cabeças.

Os repórteres do Münchener foram os primeiros a noticiar, em 1920, que um certo senhor Hitler andava impressionando os frequentadores dos fundos de uma cervejaria envolvidos na criação de um partido. Hitler tinha 30 anos, era cabo do Exército, pintava paisagens terríveis e estava ali, como infiltrado das forças armadas, para saber o que aqueles homens articulavam. O Münchener avisou que o partido e o militar que virou pregador defendiam ideias racistas. Hitler ainda era um militante miúdo.

Em 1923, o jornal publicou uma nota sobre o projeto de Hitler para o que seria, menos de 10 anos depois, o início da eliminação dos inimigos da pureza ariana _ judeus, ciganos, negros, pessoas com deficiência, homossexuais.

Num erro de avaliação, os repórteres comemoraram a prisão de Hitler, ainda em 1923, depois do fracasso da tentativa de golpe. Hitler saiu da cadeia, nove meses depois, e passou a perseguir o jornal. O Münchener _ uma cozinha de venenos, na definição do ditador _ foi destruído pelos nazistas. Alguns jornalistas fugiram e outros foram mortos, quando o cabo finalmente chegou ao poder.

O livro de Sílvia não foi feito só para jornalistas. Mas todo repórter deveria ler histórias edificantes com algum fundamento, para não confundir qualquer outra coisa parecida com jornalismo, com cara de jornalismo, que não é jornalismo.

A mais nobre missão do jornalista ainda é a mesma dos rapazes de Munique: remexer no que se camufla e se esconde e informar o que gente miúda ou graúda, como Hitler, Médici, Pinochet, Bolsonaro e Feliciano, tramavam ou tramam em cervejarias, quartéis, saunas e bordéis."

*Jornalista

sábado, 28 de setembro de 2013

O inquietante perfume de cravos


A escritora Arlete Gudolle Lopes acaba de lançar o seu primeiro livro – O inquietante perfume de cravos – Contos de amor e vida. Sim, são trinta histórias de amor e vida, contadas por alguém que ama a vida, que vive a vida plenamente, que conhece o êxtase e a dor de viver de forma intensa e apaixonada cuja sensibilidade se derrama para além de qualquer limite, incontida, irrepresável. E daí, escreve, pinta e borda e arma a teia com seus fios de seda para tecer narrativas, às vezes luz, às vezes só sombras. Porém, tanto no lume quanto na escuridão, as cores são berrantes, não há lugar para o meio-tom. Vermelho e negro, como a capa que envolve, amorosa e lindamente, o livro.

Pois bem, o primeiro grande valor dessa obra reside, justamente, na coragem de expor sentimentos e sensações os mais diversos, conforme manda a mente que comanda a mão e eles surgem, aos borbotões, sem pedir licença e inundam e transbordam e sufocam o leitor mais desavisado que, ao mergulhar na leitura, não pensava nem tencionava reconhecer-se com tanta profundidade e similitude nas páginas de um livro de contos. Daí a estranheza primeira e a não menos importante segunda e óbvia constatação: Madalena, Waleska, César Augusto, Maria Cecília, Maria Júlia, Estêvão, Lindalva, José Francisco, Elenice, Maria Helena, Eduardo, Aléksia, Narciso, Hanna, Mayara, Milena, Adeline, José Antônio, Ana Lúcia, Luís Artur, Fábio, Lharissa, Maciel, Pedro Henrique, Solange, Liana, Márcia Cristina, Marco Antônio, Daisy, Katherine, Rafaela, Maria Regina, Fabíola, Frederico, João Vicente, Ana Maria, Maria Teresa, Clarisse e Anita, Natália, Henrique, Luís Afonso, Ivanna, Vanessa, Cármen Valéria, João Vicente, Moisés, Guilherme, Carmine, Valéria, Jackeline, Carlos Afonso, Daniele... sou eu, somos nós, transubstanciados nos milhares de matizes das palavras de Arlete, que vive e sabe ler a realidade de cada um e de todos, captando os conflitos universais da alma humana com engenho e arte!

Essa formidável avalanche de emoções se faz acompanhar de outro grande e importantíssimo valor – o literário, que encontra na forma e no estilo outro transbordamento, já que a autora é especialista na língua e faz uso do vernáculo com maestria, construindo histórias primorosas, de urdidura engenhosa, milimetricamente planejadas, observando a estrutura desse gênero narrativo tão difícil de compor que é o conto. Arlete faz com que exista algo especial na representação daquele recorte da vida que gera o conto – o flagrante de um determinado instante que, pela novidade, pela surpresa, pelo inusitado, pelo trágico ou pelo cômico de uma situação, possa interessar e prender o leitor. Dona de uma expressão verbal incomum, Arlete oferece, ainda, ao leitor, a possibilidade de ampliar e qualificar significativamente o vocabulário, apropriando-se de termos que não são utilizados no linguajar cotidiano, além de propor a discussão de temas atualíssimos e polêmicos que tensionam as relações pessoais na sociedade contemporânea.

Há uma passagem, no conto Cartas de amor, de rara beleza, que compara os seres humanos com as borboletas. É pura prosa poética, como quase todo o livro, uma alegoria brilhante e encantadora que faz jus ao subtítulo – Contos de Amor e Vida, que mostra como a existência é fugaz se não for vivida apaixonadamente:

“Existe, em cada pessoa, um pouco de borboleta. Há seres que nascem crisálidas e vão se transformando aos poucos, embelezando-se quando mais se aprimoram a sua essência. Outros nascem belos, coloridos, radiantes, até que vão murchando. Lentamente. Do seu constante definhar, deles, só resta o casulo, o lado mais feio do belo inseto, que nasce e morre junto aos passantes distraídos, num rápido bater de asas. Tal como a metamorfose que sofre a borboleta, viver é um fato e um ato de renovação permanente. Morre antes quem não aceita viver intensamente em vida ou se recusa a aceitar o bom e o ruim, o alegre e o triste, o crime e o perdão. Tudo misturado, formando o amálgama trivial de que somos feitos: nervos, fibras, carne e osso, sangue, suor e lágrimas. A carcaça pode não ser bela se o interior é radiante. A palavra pode ser cruel se for dita com a mordaz intenção de ferir. Um olhar mais penetrante, um sorriso inesperado, uma atitude compreensiva ou uma palavra sussurrada ao vento podem contribuir para a cura de corações dilacerados. Um bom dia proferido com ênfase pode ser de bálsamo a quem se sente só mesmo estando rodeado de faces que riem, mas se mantêm inexpressivas, murchas, desprovidas da seiva da vida...”

Por fim, há outra peculiaridade marcante em O inquietante perfume de cravos que o torna ainda mais saboroso e encantador – a forma como a obra tem chegado até o leitor, diretamente das mãos da autora, através de uma “visita cultural” agendada! Poder-se-ia até pensar que é uma estratégia de marketing, mas trata-se de uma atitude racional para que o livro se viabilize economicamente e possa ser degustado por muitas pessoas, afinal, a Terra dos Poetas ainda carece de mais livrarias, quiosques e pontos de venda de livros. A ideia e sua consecução são magníficas, acompanhadas, sempre, de uma boa conversa, afeto e muito calor humano!

Et bien sûr, estamos sedentos por mais histórias, Mme. Gudolle Lopes!